Texto escrito por M. Laurinda R. Sousa
Para abrir o espaço deste blog, ocorreram-me vários caminhos. Escolher temas que têm sido manchete nos últimos tempos. Retomar depoimentos pessoais sobre experiências pertinentes a esta temática, reveladores de uma sociedade racista, excludente e violenta. Falar (principalmente) sobre o percurso de Edith Seligman-Silva e seu lugar pioneiro neste campo. Dentre tantas opções, decidi partilhar um escrito sobre o lançamento oficial do Núcleo Semente. Imaginei que falar disso seria também falar, ao menos tangencialmente, das ideias anteriores. Edith estaria presente em qualquer dos caminhos escolhidos. O texto saiu mais longo do que o desejável para um blog. Espero que os próximos, a serem escritos por qualquer um de nós, sejam mais breves. Mas como ele reflete um encontro tão festivo e afetivo, peço perdão pelos excessos. As festas têm, sempre, essas marcas. Tive o privilégio de coordenar essa atividade.No dia 7 de abril de 2022, numa manhã de sol, ocorreu o lançamento oficial do Núcleo Semente. Saúde Mental e Direitos Humanos Relacionados ao Trabalho, no espaço virtual do Instituto Sedes Sapientiae.
Espaço virtual tem aqui um sentido figurado e múltiplo. O primeiro é evidente: estávamos na pandemia do COVID 19 e as reuniões presenciais eram, ainda, bastante limitadas pelo risco significativo da contaminação. Virtual, também por escolha; por ser o que permitiria a participação dos que estão em outras cidades ou estados. Mas, virtual tem, também, outro sentido; o sentido daquilo que se anuncia como potência. O nome Semente, que escolhemos depois de uma longa discussão (inevitável quando se tenta encontrar um nome que condense diversos projetos e ideias), traz inscrita a ideia da potência. Potência daquilo que pode germinar, ampliar-se, expandir-se e dar origem a múltiplas ramificações.
O próprio núcleo foi, já em sua
origem, a germinação de uma história anterior. Começou a ser sonhado alguns
anos antes. Inicialmente a partir da experiência com os que se inscreveram no
curso de Saúde Mental Relacionada ao Trabalho que teve início em 2015 e,
posteriormente, com as discussões que foram se organizando no Grupo de Trabalho
voltado à continuidade do estudo dessa temática. Grupo de trabalho que se
fortaleceu não só pelo interesse no Mundo do Trabalho e dos Direitos Humanos,
mas, principalmente, pelo prazer do encontro e da troca de experiências entre
profissionais e pesquisadores que, ligados a diferentes instituições e lugares
de pertinência, encontraram nesse espaço um lugar de hospitalidade para suas
preocupações, suas experiências, seus projetos.
Irmã Pompéia que representou a
diretoria do Instituto no momento inaugural, enunciou suas primeiras palavras
com um trecho da canção dos Trabalhadores da Terra: “Ponha a semente na terra.
Não será em vão. Não te preocupes com a colheita. Planta-se para o irmão”.
Anunciou, também, o reconhecimento da herança que recebemos de Madre Cristina –
a de caminhar à frente de seu tempo. Começar com uma canção que remete aos
trabalhadores e ao valor da fraternidade e lembrar de Madre Cristina, foi uma
feliz inspiração. Alguns de nós, presentes naquela mesa inaugural, acompanhamos
de perto a luta de Madre Cristina pela Justiça Social, pela Democracia e pelos
Direitos Humanos. Sua figura marca a história do Instituto Sedes Sapientiae e
dos que o constituíram. Marca, também, os princípios que balizam nosso projeto.
No painel que se apresentou logo de
início, ficou mapeado o que toldava sombriamente aquela manhã de sol e de muitas
outras que lhe antecederam: a dor dos lutos impossíveis, o horror diante do
desgoverno do país, a crise climática, os efeitos traumáticos dos rompimentos
das barragens, a pandemia, o aumento da pobreza e da fome, a autorização
perversa para o uso de pesticidas, a precarização das condições do trabalho, a
precarização da vida. Precarização resultante de uma estratégia de destruição
daquilo e daqueles que não compactuam com as ações extrativistas e com o lucro
perverso; prioridades do neoliberalismo.
Anunciava-se para o Núcleo um lugar
democrático de resistência, de denúncia e de construção de outras formas de
viver, de trabalhar e de cuidar do meio ambiente. Uma ética do cuidado, da
solidariedade e da construção do comum.
Dra. Edith Seligmann-Silva, foi a
figura de honra dessa mesa inaugural. Pesquisadora incansável, precursora dos
estudos sobre as questões da Saúde Mental Relacionadas ao Trabalho. Responsável
pela coordenação do curso que abriu a temática do Trabalho, dentro do Sedes e
pela sustentação afetiva e intelectual deste grupo. Mestra no sentido mais
verdadeiro da palavra: aquela que abre portas, reconhece o trabalho dos que se
aproximam dela, valoriza e inclui a produção de outros grupos e instituições. Mestra,
também, no sentido de quem tem sempre um olhar e uma palavra afetuosa para os
que partilham com ela a ética do viver partilhado de uns com os outros.
Edith fez um levantamento dos itinerários da
precarização, do desgaste mental provocado pelas más condições do trabalho,
desgaste que vai dar origem ao desemprego e à dificuldade de retorno à vida
ativa. Precarização que teve início com a escravização e se manteve como
estrutural até os dias de hoje. A expansão do neoliberalismo acirrou a falta de
perspectivas para grande parte da população, criando um quadro de apatia, assujeitamento
e desamparo. Ao final de sua fala, ressaltou a necessidade de esforço e
criatividade para enfrentar a perversidade do Sistema e do governo atual
(estávamos sob os efeitos trágicos do governo daquele que nem se deve nomear) e
defender os direitos à Saúde (com a
valorização necessária do SUS), à Educação e ao Trabalho com garantias e
direitos.
Luci Praun fala a seguir, anunciando “A precarização
social do trabalho; as condições atuais e os desafios para o futuro”. Suas
primeiras palavras foram sobre o afeto que nos une como grupo, a força que
manteve esta união, apesar da pandemia. Subjacente a esse afeto, o interesse
comum: a causa do sofrimento no trabalho.
Mudanças no mundo do trabalho, ressalta
Luci, precisam ser reconhecidas como sendo parte do mundo concorrencial do
capitalismo que se disseminam e impactam a vida como um todo. A pandemia veio
acentuar tendências de precarização que já se vinham anunciando. Os espaços de
trabalho foram incorporando diretrizes que aumentaram as pressões, as
sobrecargas, as explorações e levaram à uberização, tal como definida por
Ricardo Antunes: flexibilidade total, disponibilidade permanente, mascaramento
das relações do trabalho (empreendedorismo). Uma outra nomeação – a plataformização
- vem denunciar uma cena mais grave e a naturalização de certas práticas ilegais
de vinculação ao trabalho, às quais está submetida principalmente a parte mais
vulnerável da população. O medo, a insegurança, o desgaste, o presenteísmo, a
desesperança, o mal-estar, são os afetos pregnantes dessa realidade e que se
estendem numa degradação social a longo prazo.
O que queremos para o futuro? O que
vamos deixar como legado? Pergunta que ela própria responde: É necessário
inventar um outro futuro, completamente distinto do proposto pelo mundo
capitalista neoliberal, e que só pode se efetivar se reinventarmos as ações
coletivas em unidade com todos submetidos a formas de exploração e dominação. O
Núcleo, disse Luci, é nossa pequena forma de nos mantermos juntos e contribuir
para mudanças tão necessárias e urgentes. Suas palavras foram impactantes e
emocionaram o coletivo.
Maria Maeno, que faz um trabalho intenso
de pesquisa e fala pública é convocada, com afeto, a se pronunciar. Também valoriza
a esperança que se anuncia com a proposta do Núcleo. Retoma a história da
pandemia desde o seu início, num cenário de profunda precarização. Mas algumas
conquistas nos alentavam nesse início: nossa tradição em enfrentar catástrofes,
uma legislação eficiente para enfrentar emergências em saúde pública e a
existência do SUS, apesar de muitos ataques. No entanto, as adversidades foram
enormes. Desde a gravidade da desigualdade social até um governo e congresso
voltados para o enxugamento do Estado com diminuição das verbas do SUS e
terceirização das ações sociais. Ao longo da pandemia vislumbramos a ausência
de um comando nacional com minimização dos efeitos da pandemia e distorção das
prioridades de atenção. Os trabalhadores que continuaram em atividade não
tiveram proteção e garantias de segurança.
Pesquisas mostraram que os trabalhadores viveram situações de imensos
riscos – falta de ventilação, falta de máscaras e proximidade física que
favorecia a contaminação. Muito difícil foi a comprovação do nexo causal da
Covid e o trabalho que implicaria em garantias e benefícios trabalhistas.
Inclusive dos efeitos tardios da Covid que ainda estão sendo investigados. Para
que todos os cuidados necessários possam de fato ser efetivados, termina Maria
Maeno, é preciso fortalecer o SUS, que está presente em toda nossa vida
estejamos bem ou mal e saibamos ou não, e lembra o lançamento da Conferência de
Saúde Livre democrática e popular pela frente e pela vida, que também terá como
causa a defesa e fortalecimento do SUS público e não privado, a quebra do teto
de gastos e o aprimoramento dos serviços públicos que permitam um projeto de
nação soberana, democrática e voltada para o bem de todos.
Eliana Pintor, que também faz parte da
coordenação do Núcleo e do Curso Saúde Mental Relacionada ao Trabalho, abriu a
mesa 2, para falar de dois eixos do Núcleo – o de formação continuada e o de
Comunicação. Cita Paulo Freire, para
referendar as ações do Núcleo: “A Educação é um um ato de amor, por isso um ato
de coragem, não pode temer o debate, a análise da realidade, não pode fugir da
discussão, sob pena de ser uma farsa”. O Núcleo, ressaltou, se propõe a isso e
esses eixos se abrem para criar espaços coletivos de discussão e disseminação
de nossas propostas. E, também, para viabilizar cooperação e apoio a outros
grupos que têm necessidades e ações pertinentes aos nossos projetos. Eliana encerra
sua fala com um poema de Adélia Prado: “Tem mais alguma coisa pra lavar? Tem
sim. Uma alma encardida. Um grão de esperança lava”. Nosso coletivo seria esse
grão de esperança.
Damares Vicente, que também faz
parte da coordenação do Núcleo, fala sobre outro eixo: Trabalho, Território e Saúde. Um projeto que se
propõe a realizar ações diretas junto aos trabalhadores, para tratar de
garantias de direitos humanos e da saúde mental relacionada ao trabalho. As
referências estão pautadas nos ensinamentos de Paulo Freire e na organização de
parcerias com o Centro de Educação Popular do Sedes (CEPIS), o Instituto Walter
Leser, a Universidade Federal da Paraíba e a Universidade Federal de São Paulo,
Campus da Baixada Santista. A proposta é de encontros coletivos para tratar dos
desafios do capitalismo contemporâneo e para avaliar e compreender as
necessidades decorrentes de nossa história atravessada pelos efeitos do
patriarcado, do colonialismo, das desigualdades, da racialização da classe
trabalhadora, da precarização do trabalho e da vida.
Janete Silva fala em seguida sobre
outra vertente de atuação: Escuta e acolhimento. O acolhimento e escuta do
sofrimento mental ocasionado pelo mundo do trabalho. O grupo tem três eixos: Um
eixo de estudo, de territorialidade ampliada (que se abre para o mundo externo
e interno) e de contatos com movimentos sociais e de pessoas que estão
totalmente excluídas de seus direitos – moradia, saúde, educação. A proposta é
ativa e se propõe na ida ao encontro desses grupos, estimulando o
desenvolvimento de ações que possibilitem mudanças.
Mario Cabral traz, na fala final
dessa mesa, a denúncia do genocídio e etnocídio da população indígena, que se
iniciou em 1500, agudizou-se na ditadura militar, no desmantelamento da FUNAI,
na falta de assistência durante a pandemia, no ataque aos povos isolados, na
exploração das mineradoras e na ameaça do marco temporal. Algumas resistências
garantiram certas proteções: a própria constituição de 88 garantiu direitos,
mas não foram respeitados; os movimentos mais recentes evidenciam a
coletivização e organização de diferentes grupos que se manifestam publicamente
diante dos espaços oficias. Retoma, para terminar, a pergunta de Luci: o que se
quer para o futuro? Grande parte da
resposta, diz ele, pode ser encontrada nos povos originários e no cuidado do
mundo presente no trabalho realizado por essa população. E uma indicação
preciosa: todos temos que conhecer e usufruir do livro “A queda do céu” de Davi
Kopenawa e Bruce Albert.
Edith, tocada pela fala e atuação de
Mario, faz uma proposta para o Núcleo: que se constitua um grupo de trabalho
voltado para as questões do meio ambiente e para a realidade dos povos
originários. Não só para que nos aliemos
às lutas pela preservação de sua cultura e territórios, mas também para que os
povos originários nos ajudem a enfrentar a calamidade ambiental e a
precarização da vida do trabalho que nos assola.
Foi o que tentou fazer Ailton Krenak,
líder indigenista, ao enunciar seus sonhos para adiar o fim do mundo e alertar-nos
para a metástase do capitalismo que ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na
vida de maneira incontrolável:
“É preciso suspender o
céu e pisar macio na terra. Ampliar os horizontes, harmonizar-se com a herança
cultural dos povos originários, que só precisavam trabalhar algumas horas do
dia para proverem tudo que era preciso para viver” (A vida não é útil, 2020,
p.23-24).
Termino dizendo que ouvir a gravação
deste encontro (disponível no YouTube do Sedes e no Site do Núcleo), tornou
presente, para mim, a importância de nosso grupo e a corrente de afeto que nos
manteve e nos mantém unidos. Luci Praun, numa de suas respostas às perguntas,
marcou novamente, a importância do coletivo e a necessidade de se reinventar as
formas de resistência e luta. O Núcleo tem sua força nesse coletivo.
Coordenação inicial do Núcleo Semente:
Saúde Mental e Direitos Humanos Relacionados ao Trabalho: Edith Seligmann-Silva, Eliana Pintor, M.
Laurinda R. de Sousa. Damares Vicente, Luci Praun, Marcia Espanhol Bernardo,
Pedro Mascarenhas, Vera Salerno.