Blog Núcleo Semente

O Blog do Núcleo Semente tem por objetivo ampliar o espaço de divulgação e discussão de temas relacionados ao mundo do Trabalho, da Saúde Mental e dos Direitos Humanos. Está aberto à colaboração de todxs os membros do Núcleo e de pesquisadores e pessoas de outras áreas que tenham interesse nessas temáticas. Equipe responsável: GT Comunicação e Difusão: Ana Yara e M Laurinda R Sousa.

A educação superior privada na caixa de Skinner: é possível construir saúde nas IES privadas? – Parte II ¹

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Este texto é continuação do publicado anteriormente, em 20/12/2023. Neles, Dimitri Moita nos convida para a reflexão necessária sobre a precarização da Educação e do Trabalho, no ensino superior privado no Brasil. Estará o trabalho pedagógico submetido a experiências semelhantes às realizadas por Skinner com seus objetos de estudo (ratos em geral) para demonstrar suas hipóteses sobre o condicionamento do comportamento.


Dímitre Moita[2]

 Continuando, é necessário explicar por que a IES privada faz o contrário do que é necessário à formação de suas estudantes. Como aponta a análise institucional de Alfredo Moffatt em a Psicoterapia do Oprimido, que demonstra que o manicômio faz ao paciente justamente o contrário do que ele necessita, ou seja, ao invés de enriquecer seu mundo interno e prover mais recursos para lidar consigo e com os outros, impõe-lhe isolamento social e monotonia extrema; a IES privada provoca algo semelhante às estudantes. Diante de suas necessidades era necessário mais mundo, mais recursos.

Como muitos de nós formados em universidades públicas, deveriam poder: participar de grupos de estudo, de pesquisa, de debates, engajar em atividades de organização política estudantil, projetos de extensão, participar e organizar congressos, cursar disciplinas livres ou em outros cursos, produzir e/ou fruir arte, praticar esportes e jogos, organizar festas, realizar mobilidade acadêmica, contar com apoio pedagógico e psicossocial, enfim, atividades que fazem de uma IES uma universidade digna do nome que leva universo em seu início. As estudantes deveriam poder escolher! Terem opções concretas e eleger a ênfase que gostariam de dar à sua formação, decidir que profissional vão ser.

As respostas a essa estrutura, ao sofrimento ético-político provocado por ser obrigado a conduzir essa ingestão paradoxal, são as mais inadaptadas. O fatalismo viceja entre os docentes. Tive uma conversa com um colega da enfermagem que afirmou ter se tornado um pragmático, “as coisas são assim e busco me adaptar”. Também grassa o cinismo, “é só isso que dá pra fazer aqui e qualquer coisa já tá bom”, e a despersonalização do outro: é comum ouvir colegas na sala dos professores falarem das estudantes como incapazes, maledicentes, mal-intencionadas, sem ímpeto, fraudadoras e perseguidoras.

Também são ineficientes as respostas das estudantes: exigem a demissão de professoras antes de pensar formas de mediação, atribuem a profissionais técnicas a responsabilidade por falhas da IES, desrespeitam colegas e professores... Várias vezes escutei de estudantes “só quero pegar meu diploma e sair desse lugar” (uma vez ao invés de lugar, inferno). Tão diferente da sensação que tive ao me formar na instituição pública em que estudei, só pensava em alguma forma de voltar àquela universidade. Na IES privada, os memes e as figurinhas de whatsapp “a universidade não me dá um segundo de paz” e “a universidade destruiu minha vida” fazem sucesso nas redes sociais e são usados com frequência porque sintetizam o sentimento mais comum das estudantes em relação à faculdade.

Se alguém que lê se questiona “mas não foi sempre assim?”. Até onde vai meu conhecimento, não. Uma década atrás as professoras, mesmo horistas, recebiam o dobro da remuneração percebida hoje. Tinham tempo dedicado a outras atividades que não a sala de aula. “Ah, então era um paraíso!”, não. Apenas quero indicar que o processo é de precarização: desabrida, galopante e explícita. É angustiante iniciar cada semestre com a questão “o que vão nos tirar agora?”. Porque enquanto escrevo não consigo pensar como liofilizar ainda mais essa educação (e se conseguisse não compartilharia para não dar ideia), mas a meia dúzia de semestres que trabalhei na IES privada já me ensinaram bem: sempre é possível tirar mais um pouco, enxugar mais um tanto, desidratar mais o ensino.

Sei que o ímpeto revolucionário não dispõe de muitos adeptos entre nós. Sei também que o desejo de conciliação de classe tem se disfarçado de realismo político onde o discurso da mudança social se multiplica, mas o que venho refletindo (e torço que este relato colabore para ampliar nossa compreensão) é que as IES privadas, geridas pelos grandes grupos de capital aberto, não estão sequer sob a civilidade frágil do capitalismo regulado. É o capitalismo gore ou o neoliberalismo pornográfico (como escutei de um colega sociólogo) que impera ali. E como costuma ser sob o capital, a finalidade social da organização, educar, é subsumida, está baleada na beira da estrada, sem quem lhe socorra; mas os lucros (que podem ser conhecidos ao acessar a comissão de valores mobiliários, para os grupos de capital aberto) crescem com um fôlego de maratonista, de triatleta, trimestre após trimestre.

Em minha formação como psicólogo, ao final da disciplina de análise do comportamento, os ratos com que passamos o semestre, da caixa de Skinner iam para o viveiro das cobras. Quando não eram mortos e descartados por não serem mais úteis para qualquer outro experimento. Nem em qualquer analogia, merecemos, estudantes e professoras, destinos semelhantes.



[1] Este texto é continuação do anteriormente publicado neste blog. Esta divisão ocorreu pelos critérios de publicação – tamanho dos textos até 5.000 caracteres.

[2] Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade do Ceará. Aperfeiçoamento em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professor de Psicologia.

 

A educação superior privada na caixa de Skinner: é possível construir saúde nas IES privadas? – Parte I¹

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Dímitre Moita²

 

A experiência recente como docente de uma instituição de ensino superior (IES) privada incitou a reflexão acerca de condições institucionais e de trabalho que considero relevante compartilhar. A história que vou contar é bastante difundida, sobretudo entre quem discute e luta nos campos da educação e do trabalho: a história da crescente precarização da educação e do trabalho no ensino superior privado no Brasil. A reflexão que segue é, além de um exercício de autoavaliação, um convite ao diálogo sobre o que mudou e o que precisa ser mudado nesse setor.

Há uma massa de pesquisa e conhecimento sobre a financeirização do setor, sobre a tendência de mercadorização da educação e sobre a injustiça do financiamento público indireto através do endividamento das pessoas mais pobres que acessam o ensino superior por meio do FIES. Tudo isso é de extrema relevância e deve ser compreendido como o âmbito macrossocial de determinação da vivência nas IES privadas. Minha reflexão está circunscrita a um patamar microssocial, das experiências do cotidiano.

Sou professor de Psicologia do Trabalho em uma IES privada. Costumo discutir com as estudantes, no tópico Saúde Mental e Trabalho, o estudo de caso Aprisionado pelos ponteiros de um relógio, de Maria Elizabeth Antunes Lima, Ada Ávila Assunção e João Manuel Saveia Daniel Francisco. O estudo aborda o processo de adoecimento de Carlos, porteiro de um edifício-garagem em Belo Horizonte que desenvolve um transtorno mental relacionado à organização excessivamente rígida do trabalho, às ferramentas de vigilância, como o relógio que precisava acionar a cada 25 minutos, ao turno fixo noturno, ao conteúdo empobrecido das tarefas, ao isolamento e ao alto grau de monotonia a que foi submetido pela estrutura da atividade.

Na discussão em sala, um estudante, após percorrermos toda a descrição do caso, afirmou indignado, “ele ficou como um rato numa caixa de Skinner!” (dispositivo de laboratório utilizado para observar através do treinamento o comportamento de animais. O sujeito experimental desses estudos costuma ser o rato). A analogia foi rica e permitiu uma ótima reflexão entre as colegas: “ele foi reduzido à dimensão não verbal, privado de se expressar simbolicamente, teve sua subjetividade reduzida à operação de uma máquina”. Enquanto mediava aquele debate, me dei conta de que a analogia se aplicava não somente ao Carlos, mas também a nós, estudantes e professoras daquela IES privada.

Se para o Carlos, aprisionado pelos ponteiros de um relógio, a caixa de Skinner era uma cabine de 1,2m por 0,8m, a nossa é a sala de aula. Com um pouco mais de variabilidade: nossa vida é do elevador para a sala de aula, dela para o elevador. E o ciclo reinicia amanhã. E depois. Porque, contratadas como horistas, as professoras precisam de muitas disciplinas para compor a renda mensal (30 horas semanais dentro da sala de aula podem ser vistas como um alívio, já que cargas semanais de 37, 39 ou 40 horas semanais são comuns), e atividades de pesquisa e extensão não são remuneradas na maior parte dessas instituições. Os papéis dentro da sala de aula são muito bem definidos e rígidos. Professoras devem conduzir todo o processo: escolher atividades, definir avaliações, controlar presença e passar o conteúdo. Estudantes devem passivamente acompanhar tudo: responder, obedecer, silenciar e esperar. Em turmas maiores, todo o ritual pode se assemelhar bastante a um comício ou uma dessas palestras de esquema de pirâmide a que somos levados a contragosto.

Percebemos que somos muito mais assemelhados ao porteiro do edifício-garagem do que observamos à primeira leitura. E assim como Carlos, estamos adoecendo. De trabalho e educação! De ter de operar uma educação bancária, tecnicista e paradoxalmente contrária às necessidades de estudantes-trabalhadoras (na maior parte dos casos trabalhadoras-estudantes, porque a primeira condição toma quase todo o tempo de vida), formadas em ensino fundamental e médio carregados de precariedades. Aquilo que é necessário, a IES privada oferece o contrário.



1 Este texto foi dividido em duas partes, devido aos critérios para publicação no Blog. (até 5000 caracteres)

2 Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade do Ceará. Aperfeiçoamento em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professor de Psicologia.

Os caminhos para superar o desafio da desigualdade racial

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Neste mês de novembro em que se celebra a consciência negra e os movimentos de resistência à desigualdade racial, Ivair nos apresenta mais um texto esclarecedor sobre essa questão.


Por Ivair Augusto Alves dos Santos

Mario Theodoro com seu livro “A Sociedade Desigual: Racismo e Branquitude na Formação do Brasil” e agora Michael França e Allysson Portela que acabam de anunciar o lançamento do livro "Números da Discriminação Racial", nos levam a repensar políticas de promoção da igualdade racial.

Ao tabular e analisar longas séries históricas de dados sobre a evolução das disparidades raciais no país percebe-se que, em muitas dimensões, não avançamos quase nada e, em determinados casos, estamos regredindo. No mercado de trabalho, por exemplo, desde 2010, negros ganham, em média, cerca de 50% menos que brancos.

Os dados sobre desigualdades raciais persistem. Apesar dos últimos esforços e as mais variadas formas de discriminação e estigmas enfrentados pelos negros, o racismo representa poderoso freio em seus desenvolvimentos individuais.

Historicamente, um quarto do crescimento anual da economia brasileira vai para 1% da população. Portanto, nossas políticas são voltadas para o 1%. Metade do crescimento vai para 5% da população. Toda nossa discussão é sobre um crescimento que está sendo apropriado pelos 5% mais ricos.

Um exemplo dessa disparidade está nas empresas de maior destaque na economia brasileira.

Em cerimônia de premiação, em 2023, das 150 melhores empresas para trabalhar promovida por “Época Negócios” e "Valor Econômico" temos a exata noção de como as desigualdades irão persistir nos próximos anos. Nestas empresas só 11,2 % dos funcionários se declararam pretos ou pardos, 6,5% homens e 4,7% mulheres.

Os programas de investimentos em diversidade são modestos, tímidos, com pouquíssimo investimentos e muito distantes de uma sociedade em que negros estejam de fato representados. Na sua maioria, essas empresas se resumem a oferecer treinamento contra o racismo para os gestores em geral.

As organizações são ambientes cuja tradição é de maioria branca e heterossexual. Abrir espaço para negros é um desafio que exige sensibilidade, persistência e mudança de atitude política. Há um olhar de tratar as políticas de diversidade como uma forma de assistência social, que não há nada de errado nisso, se pudesse ser realizado em escalas condizentes com as necessidades da população negra.

Um exemplo positivo ocorreu nesta semana: a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos (PCdoB) deu uma entrevista para o Jornal Estado de S. Paulo em que disse que pretende ampliar a presença de negros nas carreiras cientificas e tecnológicas . Ela planeja em escala nacional uma versão do programa Embarque Digital. Este programa, exitoso em Recife, deu bolsas de graduação na área de tecnologia da informação (TI) a ex alunos da rede pública.

Segundo a ministra “há um déficit gigante no Brasil ( de profissionais nesse setor). Calcula-se que 100 mil vagas.”

Pensar o Brasil exige dimensionar as desigualdades raciais e o tamanho do desafio, pois ainda não temos uma proposta de crescimento econômico que contemple as desigualdades raciais.

Olhar só o crescimento total da economia é ser negligente em relação à desigualdade. No geral, o debate sobre o crescimento no Brasil é sobre o crescimento total, não se discute se é um crescimento pró-pobre ou pró-rico. Deve-se olhar o crescimento pela distribuição, mudar a perspectiva. Como resolver essa desigualdade histórica? Não existe uma solução mágica.

Segundo o sociólogo Marcelo Medeiros, do Ipea, em seu livro : Os ricos e os Pobres, "para enfrentar os conflitos distributivos, não devemos subestimar as forças contrárias. Pessoas vão perder e vão disputar para não perder. Não vão ser coisas isoladas, não vai ser só educação, não vai ser só tributação. Vai envolver coisas em grande escala".

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Nesta semana publicamos o texto de Ivair Augusto Alves dos Santos que também é membro do Núcleo Semente. Ivair discute e problematiza os programas de Diversidade e Inclusão nas empresas, enfatizando o quanto a Democracia é incompatível com discriminações de qualquer natureza.

A Ilusão dos Programas e Políticas de Diversidade nas Empresas que Incluem as Pessoas Negras


Estamos recebendo e lendo de maneira crítica informes públicos sobre ações de empresas que estão adotando programas de Diversidade e Inclusão que têm na falta de transparência sobre seus dados e indicadores um denominador comum.

Recebem prêmios, são citadas em entrevistas, apresentam informes animadores, que mais parecem ser uma peça promocional da empresa, que uma prestação de contas.

Há algumas questões que precisam ser formuladas: a primeira se a empresa tem um ambiente democrático, pois sem respeito à democracia, fica difícil acreditar que promovam diversidade e inclusão. Estruturas hierarquizadas, com lideranças autoritárias, politicamente de extrema direita são incompatíveis com a existência de um clima democrático. Raramente esses programas de Diversidade e Inclusão relatam que puniram algum diretor sobre manifestações racistas, homofóbicas, machistas. É como se lançar algumas publicações sobre o tema fosse o suficiente.

Democracia é incompatível com discriminações de qualquer natureza.

Outro tema é a noção de que implementação de políticas de diversidade e inclusão possa ser vista como política assistencialista, caridade, benemérita ou de responsabilidade social e nunca como uma política de direitos. Isso torna tudo muito diferente. Os dados e indicadores divulgados são modestos e definidos aleatoriamente, dando a entender que qualquer mudança insignificativa diante do tamanho do grupo social contribuiria de alguma forma. Quando na maioria das vezes é como se estivéssemos correndo em uma esteira, não saímos do lugar.

Quanto custa financeiramente um programa de Diversidade e Inclusão? Não existe resposta, nem dados sobre esta questão. Há uma absoluta falta de transparência nos relatórios apresentados por fundações, empresas, bancos etc. Há uma dura e cínica perspectiva que nos é passada, em que todas as ações são simbólicas, e precisam ser festejadas por menor que sejam. Devemos simplesmente agradecer, sem nenhuma crítica. Não existe diálogo, nem tampouco solidariedade entre as pessoas que estão incluídas nos programas de Diversidade e Inclusão. Cada um disputa seu percentual nas empresas, cada um procura mostrar o tamanho das desigualdades que se referem a seu grupo, sua representatividade.

A luta pela sobrevivência de todos os trabalhadores nas instituições cria limites para uma atuação mais libertária, mas um ponto há que se destacar e nos preocupar: a saúde mental de uma pessoa que passa por discriminação racial. Os transtornos mentais relacionados ao trabalho são um componente ignorado por esses programas. No máximo há uma menção sobre a criação de um espaço de escuta, ou recomendação para ações individuais de prevenção a problemas de saúde mental. A organização do trabalho em uma instituição está diretamente relacionada ao adoecimento mental, mas é ignorada na hora de equacionar elaborar as estratégias de políticas de Diversidade e Inclusão.

Um programa bem-sucedido de diversidade exige o compromisso de todos os setores da empresa, a começar por sua alta direção, assumindo a diversidade como um valor essencial da empresa, expresse-a em sua declaração de missão e incorpore-a ao seu planejamento estratégico. Entretanto, os líderes das empresas raramente manifestam-se publicamente sobre a política de Diversidade e Inclusão.

O último ponto que sintetiza um pouco esse comentário nada otimista sobre as políticas de Diversidade e Inclusão tem a ver com o fato de não existir nenhuma ou raríssimas menções nas estratégias de implementação que deveria fazer parte dos relatórios e textos de divulgação sobre o respeito aos Direitos Humanos nas empresas. Esse é um aspecto que sintetizaria a necessidade de reflexões mais ambiciosas e mais próximas da realidade dos grupos sub-representados nas empresas, e na definição de ações relacionadas a políticas de Diversidade e Inclusão.

Ivair Augusto Alves dos Santos. Doutor em Sociologia (UNB). Mestre em Ciência Politica (UNICAMP). Executivo Público da Secretaria de Saúde de São Paulo/Divisão Técnica de Saúde do Trabalhador.

Breve História dos Começos

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Texto escrito por M. Laurinda R. Sousa

Para abrir o espaço deste blog, ocorreram-me vários caminhos. Escolher temas que têm sido manchete nos últimos tempos. Retomar depoimentos pessoais sobre experiências pertinentes a esta temática, reveladores de uma sociedade racista, excludente e violenta. Falar (principalmente) sobre o percurso de Edith Seligman-Silva e seu lugar pioneiro neste campo. Dentre tantas opções, decidi 
 partilhar um escrito sobre o lançamento oficial do Núcleo Semente. Imaginei que falar disso seria também falar, ao menos tangencialmente, das ideias anteriores. Edith estaria presente em qualquer dos caminhos escolhidos. O texto saiu mais longo do que o desejável para um blog. Espero que os próximos, a serem escritos por qualquer um de nós, sejam mais breves.  Mas como ele reflete um encontro tão festivo e afetivo, peço perdão pelos excessos. As festas têm, sempre, essas marcas. Tive o privilégio de coordenar essa atividade.

No dia 7 de abril de 2022, numa manhã de sol, ocorreu o lançamento oficial do Núcleo Semente. Saúde Mental e Direitos Humanos Relacionados ao Trabalho, no espaço virtual do Instituto Sedes Sapientiae.

Espaço virtual tem aqui um sentido figurado e múltiplo. O primeiro é evidente: estávamos na pandemia do COVID 19 e as reuniões presenciais eram, ainda, bastante limitadas pelo risco significativo da contaminação. Virtual, também por escolha; por ser o que permitiria a participação dos que estão em outras cidades ou estados. Mas, virtual tem, também, outro sentido; o sentido daquilo que se anuncia como potência. O nome Semente, que escolhemos depois de uma longa discussão (inevitável quando se tenta encontrar um nome que condense diversos projetos e ideias), traz inscrita a ideia da potência. Potência daquilo que pode germinar, ampliar-se, expandir-se e dar origem a múltiplas ramificações.

O próprio núcleo foi, já em sua origem, a germinação de uma história anterior. Começou a ser sonhado alguns anos antes. Inicialmente a partir da experiência com os que se inscreveram no curso de Saúde Mental Relacionada ao Trabalho que teve início em 2015 e, posteriormente, com as discussões que foram se organizando no Grupo de Trabalho voltado à continuidade do estudo dessa temática. Grupo de trabalho que se fortaleceu não só pelo interesse no Mundo do Trabalho e dos Direitos Humanos, mas, principalmente, pelo prazer do encontro e da troca de experiências entre profissionais e pesquisadores que, ligados a diferentes instituições e lugares de pertinência, encontraram nesse espaço um lugar de hospitalidade para suas preocupações, suas experiências, seus projetos.

Irmã Pompéia que representou a diretoria do Instituto no momento inaugural, enunciou suas primeiras palavras com um trecho da canção dos Trabalhadores da Terra: “Ponha a semente na terra. Não será em vão. Não te preocupes com a colheita. Planta-se para o irmão”. Anunciou, também, o reconhecimento da herança que recebemos de Madre Cristina – a de caminhar à frente de seu tempo. Começar com uma canção que remete aos trabalhadores e ao valor da fraternidade e lembrar de Madre Cristina, foi uma feliz inspiração. Alguns de nós, presentes naquela mesa inaugural, acompanhamos de perto a luta de Madre Cristina pela Justiça Social, pela Democracia e pelos Direitos Humanos. Sua figura marca a história do Instituto Sedes Sapientiae e dos que o constituíram. Marca, também, os princípios que balizam nosso projeto.

No painel que se apresentou logo de início, ficou mapeado o que toldava sombriamente aquela manhã de sol e de muitas outras que lhe antecederam: a dor dos lutos impossíveis, o horror diante do desgoverno do país, a crise climática, os efeitos traumáticos dos rompimentos das barragens, a pandemia, o aumento da pobreza e da fome, a autorização perversa para o uso de pesticidas, a precarização das condições do trabalho, a precarização da vida. Precarização resultante de uma estratégia de destruição daquilo e daqueles que não compactuam com as ações extrativistas e com o lucro perverso; prioridades do neoliberalismo.

Anunciava-se para o Núcleo um lugar democrático de resistência, de denúncia e de construção de outras formas de viver, de trabalhar e de cuidar do meio ambiente. Uma ética do cuidado, da solidariedade e da construção do comum.

Dra. Edith Seligmann-Silva, foi a figura de honra dessa mesa inaugural. Pesquisadora incansável, precursora dos estudos sobre as questões da Saúde Mental Relacionadas ao Trabalho. Responsável pela coordenação do curso que abriu a temática do Trabalho, dentro do Sedes e pela sustentação afetiva e intelectual deste grupo. Mestra no sentido mais verdadeiro da palavra: aquela que abre portas, reconhece o trabalho dos que se aproximam dela, valoriza e inclui a produção de outros grupos e instituições. Mestra, também, no sentido de quem tem sempre um olhar e uma palavra afetuosa para os que partilham com ela a ética do viver partilhado de uns com os outros.

Edith fez um levantamento dos itinerários da precarização, do desgaste mental provocado pelas más condições do trabalho, desgaste que vai dar origem ao desemprego e à dificuldade de retorno à vida ativa. Precarização que teve início com a escravização e se manteve como estrutural até os dias de hoje. A expansão do neoliberalismo acirrou a falta de perspectivas para grande parte da população, criando um quadro de apatia, assujeitamento e desamparo. Ao final de sua fala, ressaltou a necessidade de esforço e criatividade para enfrentar a perversidade do Sistema e do governo atual (estávamos sob os efeitos trágicos do governo daquele que nem se deve nomear) e defender os direitos à Saúde  (com a valorização necessária do SUS), à Educação e ao Trabalho com garantias e direitos.

Luci Praun fala a seguir, anunciando “A precarização social do trabalho; as condições atuais e os desafios para o futuro”. Suas primeiras palavras foram sobre o afeto que nos une como grupo, a força que manteve esta união, apesar da pandemia. Subjacente a esse afeto, o interesse comum: a causa do sofrimento no trabalho.

Mudanças no mundo do trabalho, ressalta Luci, precisam ser reconhecidas como sendo parte do mundo concorrencial do capitalismo que se disseminam e impactam a vida como um todo. A pandemia veio acentuar tendências de precarização que já se vinham anunciando. Os espaços de trabalho foram incorporando diretrizes que aumentaram as pressões, as sobrecargas, as explorações e levaram à uberização, tal como definida por Ricardo Antunes: flexibilidade total, disponibilidade permanente, mascaramento das relações do trabalho (empreendedorismo). Uma outra nomeação – a plataformização - vem denunciar uma cena mais grave e a naturalização de certas práticas ilegais de vinculação ao trabalho, às quais está submetida principalmente a parte mais vulnerável da população. O medo, a insegurança, o desgaste, o presenteísmo, a desesperança, o mal-estar, são os afetos pregnantes dessa realidade e que se estendem numa degradação social a longo prazo.

O que queremos para o futuro? O que vamos deixar como legado? Pergunta que ela própria responde: É necessário inventar um outro futuro, completamente distinto do proposto pelo mundo capitalista neoliberal, e que só pode se efetivar se reinventarmos as ações coletivas em unidade com todos submetidos a formas de exploração e dominação. O Núcleo, disse Luci, é nossa pequena forma de nos mantermos juntos e contribuir para mudanças tão necessárias e urgentes. Suas palavras foram impactantes e emocionaram o coletivo.

Maria Maeno, que faz um trabalho intenso de pesquisa e fala pública é convocada, com afeto, a se pronunciar. Também valoriza a esperança que se anuncia com a proposta do Núcleo. Retoma a história da pandemia desde o seu início, num cenário de profunda precarização. Mas algumas conquistas nos alentavam nesse início: nossa tradição em enfrentar catástrofes, uma legislação eficiente para enfrentar emergências em saúde pública e a existência do SUS, apesar de muitos ataques. No entanto, as adversidades foram enormes. Desde a gravidade da desigualdade social até um governo e congresso voltados para o enxugamento do Estado com diminuição das verbas do SUS e terceirização das ações sociais. Ao longo da pandemia vislumbramos a ausência de um comando nacional com minimização dos efeitos da pandemia e distorção das prioridades de atenção. Os trabalhadores que continuaram em atividade não tiveram proteção e garantias de segurança.  Pesquisas mostraram que os trabalhadores viveram situações de imensos riscos – falta de ventilação, falta de máscaras e proximidade física que favorecia a contaminação. Muito difícil foi a comprovação do nexo causal da Covid e o trabalho que implicaria em garantias e benefícios trabalhistas. Inclusive dos efeitos tardios da Covid que ainda estão sendo investigados. Para que todos os cuidados necessários possam de fato ser efetivados, termina Maria Maeno, é preciso fortalecer o SUS, que está presente em toda nossa vida estejamos bem ou mal e saibamos ou não, e lembra o lançamento da Conferência de Saúde Livre democrática e popular pela frente e pela vida, que também terá como causa a defesa e fortalecimento do SUS público e não privado, a quebra do teto de gastos e o aprimoramento dos serviços públicos que permitam um projeto de nação soberana, democrática e voltada para o bem de todos.

Eliana Pintor, que também faz parte da coordenação do Núcleo e do Curso Saúde Mental Relacionada ao Trabalho, abriu a mesa 2, para falar de dois eixos do Núcleo – o de formação continuada e o de Comunicação.  Cita Paulo Freire, para referendar as ações do Núcleo: “A Educação é um um ato de amor, por isso um ato de coragem, não pode temer o debate, a análise da realidade, não pode fugir da discussão, sob pena de ser uma farsa”. O Núcleo, ressaltou, se propõe a isso e esses eixos se abrem para criar espaços coletivos de discussão e disseminação de nossas propostas. E, também, para viabilizar cooperação e apoio a outros grupos que têm necessidades e ações pertinentes aos nossos projetos. Eliana encerra sua fala com um poema de Adélia Prado: “Tem mais alguma coisa pra lavar? Tem sim. Uma alma encardida. Um grão de esperança lava”. Nosso coletivo seria esse grão de esperança.

Damares Vicente, que também faz parte da coordenação do Núcleo, fala sobre outro eixo:  Trabalho, Território e Saúde. Um projeto que se propõe a realizar ações diretas junto aos trabalhadores, para tratar de garantias de direitos humanos e da saúde mental relacionada ao trabalho. As referências estão pautadas nos ensinamentos de Paulo Freire e na organização de parcerias com o Centro de Educação Popular do Sedes (CEPIS), o Instituto Walter Leser, a Universidade Federal da Paraíba e a Universidade Federal de São Paulo, Campus da Baixada Santista. A proposta é de encontros coletivos para tratar dos desafios do capitalismo contemporâneo e para avaliar e compreender as necessidades decorrentes de nossa história atravessada pelos efeitos do patriarcado, do colonialismo, das desigualdades, da racialização da classe trabalhadora, da precarização do trabalho e da vida. 

Janete Silva fala em seguida sobre outra vertente de atuação: Escuta e acolhimento. O acolhimento e escuta do sofrimento mental ocasionado pelo mundo do trabalho. O grupo tem três eixos: Um eixo de estudo, de territorialidade ampliada (que se abre para o mundo externo e interno) e de contatos com movimentos sociais e de pessoas que estão totalmente excluídas de seus direitos – moradia, saúde, educação. A proposta é ativa e se propõe na ida ao encontro desses grupos, estimulando o desenvolvimento de ações que possibilitem mudanças.

Mario Cabral traz, na fala final dessa mesa, a denúncia do genocídio e etnocídio da população indígena, que se iniciou em 1500, agudizou-se na ditadura militar, no desmantelamento da FUNAI, na falta de assistência durante a pandemia, no ataque aos povos isolados, na exploração das mineradoras e na ameaça do marco temporal. Algumas resistências garantiram certas proteções: a própria constituição de 88 garantiu direitos, mas não foram respeitados; os movimentos mais recentes evidenciam a coletivização e organização de diferentes grupos que se manifestam publicamente diante dos espaços oficias. Retoma, para terminar, a pergunta de Luci: o que se quer para o futuro?   Grande parte da resposta, diz ele, pode ser encontrada nos povos originários e no cuidado do mundo presente no trabalho realizado por essa população. E uma indicação preciosa: todos temos que conhecer e usufruir do livro “A queda do céu” de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

Edith, tocada pela fala e atuação de Mario, faz uma proposta para o Núcleo: que se constitua um grupo de trabalho voltado para as questões do meio ambiente e para a realidade dos povos originários.  Não só para que nos aliemos às lutas pela preservação de sua cultura e territórios, mas também para que os povos originários nos ajudem a enfrentar a calamidade ambiental e a precarização da vida do trabalho que nos assola.

Foi o que tentou fazer Ailton Krenak, líder indigenista, ao enunciar seus sonhos para adiar o fim do mundo e alertar-nos para a metástase do capitalismo que ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável:

 “É preciso suspender o céu e pisar macio na terra. Ampliar os horizontes, harmonizar-se com a herança cultural dos povos originários, que só precisavam trabalhar algumas horas do dia para proverem tudo que era preciso para viver” (A vida não é útil, 2020, p.23-24).

 Termino dizendo que ouvir a gravação deste encontro (disponível no YouTube do Sedes e no Site do Núcleo), tornou presente, para mim, a importância de nosso grupo e a corrente de afeto que nos manteve e nos mantém unidos. Luci Praun, numa de suas respostas às perguntas, marcou novamente, a importância do coletivo e a necessidade de se reinventar as formas de resistência e luta. O Núcleo tem sua força nesse coletivo.

Coordenação inicial do Núcleo Semente: Saúde Mental e Direitos Humanos Relacionados ao Trabalho:  Edith Seligmann-Silva, Eliana Pintor, M. Laurinda R. de Sousa. Damares Vicente, Luci Praun, Marcia Espanhol Bernardo, Pedro Mascarenhas, Vera Salerno.